A fumaça do cigarro que Cocota desfrutava não incomodava. No carro o som era da banda Ave Sangria. No retrovisor uma foto 3x4 da minha querida avó que tinha partido para outro plano espiritual há pouco. Seguíamos para a cidade de Triunfo para curtir o seu famoso festival de música. Alegres e cantando Geórgia, a Carniceira; “Geórgia, A Carniceira dos pântanos frios das noites do Deus satã, jogando boliche com as cabeças das moças mortas de cio, no levantar das manhãs de abril” ...
Entre paisagens,
bodes, caminhantes e placas enferrujadas cheias de buracos de bala, que
apontavam a direção do nosso destino, ao chegarmos ao quilômetro 110, eram
09hs da manhã. Cocota passou cantando a plenos pulmões, para o
companheiro ao lado um “Góia”. O vento que soprava veloz através da janela
aberta fez deslocar um minúsculo resto de brasa, que queimando meus olhos. No reflexo ao
tentar tirar o incômodo acabei perdendo o controle do carro. Capotamos e a
violência do carro girando, não refletia dentro de mim uma realidade, tudo
acontecendo em câmara lenta. Os vidros voavam dentro do carro em partículas que
brilhavam refletindo o sol, senti algo batendo em minha cabeça.
Quando o carro parou
escutei pássaros e depois de um momento de silêncio procurei saber se todos
estavam bem. Maviel no banco de trás falando que não sabia onde estava
sua camisa do Sport, e que tinha cortado de leve os dedos. Cocota fez sinal de
positivo, sinalizando que estava tudo bem.
Minha Brasília 77, de
cor creme, que carinhosamente chamava de "minha cremosa", ficou
virada no sentido contrário no canteiro central. Olhei a estrada e vi um carro
parado no acostamento. Uma senhora abriu a porta e correu em nossa direção,
talvez querendo oferecer ajuda, e sem que percebesse um terceiro carro a
arremessou sobre nossos olhares, o impacto fez com que ela voasse como uma
boneca gigante caindo morta no asfalto quente do sertão.
Perplexos, assistimos
a tudo sem acreditar; O toca fita continuava rolando a sonora. Saímos para
conferir o que tinha acontecido, o estarrecimento estava em nossos rostos.
Outros carros iam parando, pessoas chegando e perguntando se estava tudo bem e
nos acolhendo. Foi quando ela apareceu do outro lado da estrada, uma moça me
olhava de forma tranquila, de pele branca e com uma tatuagem no ombro, parecia
um Pentáculo e era hipnotizante. Cocota, porém, conseguiu cortar o momento quando
chorando de cabeça baixa me chamando a atenção, tentei acalmá-lo sem muito
sucesso. – Nem Legião Urbana o acalmaria ou daria um jeito naquele momento.
Não demorou e chegou
uma ambulância que nos levou até um posto de saúde da cidade mais próxima, Cocota
e Maviel sentados se perguntavam porque tudo isso tinha que acontecer, senti o
desespero neles por conta do acidente com a senhora e calei, o momento pedia.
Não lembro bem o tempo que passou. Num piscar de olhos era noite, não tardou e
logo nossos familiares chegaram e voltamos para capital todos em silêncio.
Em casa adormeci na
sala, sonhei com a moça da tatuagem de pele pálida e olhos verdes que me olhava
com um leve sorriso no rosto. Estendendo a mão ela me chamava, perguntei para
onde íamos e ela apenas continuou me fazendo sinal. Insisto, mas sem sucesso.
Percebo que era a mesma moça do pentáculo que vi pela manhã.
Algo me atraiu e fui
bem devagar. A cada passo, a cada momento que me aproximava sentia uma sensação
de leveza no corpo, dando ainda mais vontade de seguir aquela moça que fazia um
caminho desconhecido. Caminhamos por uma relva bem verde, a luz no céu era
divina, longe sentada em uma pedra percebo alguém à margem de um rio de águas
bem claras, me aproximo, era a senhora que fora atropelada, logo cedo, mas ela
estava bem e me convidou para sentar. – Por algum motivo fiquei bem tranquilo.
Sentei e ficamos
olhando o rio com uma correnteza bem leve, a água era tão clarinha que dava até
para ver os peixes no fundo. À medida que o tempo ia passando percebo a
grandeza daquele lugar, não queria voltar mais do meu sonho e questionei se
realmente era um.
- Você gostou daqui?
Murmura a senhora, olhando para o horizonte. – Acho que eu estou começando a
entender... Na margem do outro lado do rio vejo pessoas, um rosto conhecido me
chama atenção, ela do outro lado me acena e sorri, percebo algo familiar. - Vá,
corra até lá, é a sua vó que te espera...

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