O forró nosso de cada dia, mas conhecido vulgarmente como “música regional” era o nosso despertador matinal. Trio Nordestino, Jorge de Altinho, Assisão, Azulão, Genival Lacerda, Quinteto Violado, Aciole Neto, Os Três do Nordeste, Marinês, Jackson do Pandeiro e claro Luiz Gonzaga, entre outros tantos. A programação e o forró tocava e existia, isso era fato, mesmo que em uma hora específica, sempre muito cedo e depois no final da tarde. A capital pernambucana e toda região metropolitana vivia esse momento de puro suco musical de “nordestinidade”.
Mas o que aconteceu para que esse tipo de programação não se desenvolvesse nas grades das rádios locais? Simples, ou pelo menos parece simples. Vou tentar explicar como mero ouvinte. Percebo que nossa cultura ou o que que se entenda por cultura, deixou de ser uma prioridade, e existe hoje uma adequação forçada em uma tentativa de deixar o mercado de uma maneira só, intencionalizando tudo que se pode ao próprio benefício financeiro. - começaram os cortes de custo e eliminaram os programas tradicionais para outros “ditos” comerciais, deixando de investir no que é nosso para construir uma performática mais “sulista” de música – são as famosas mudanças no perfil comercial das emissoras na busca de uma estética nacional que empurra, outras tradições, de nossa região para longe de nossos ouvidos, destruindo costumes para prevalecer o discurso dos interesses comerciais nacionais empurrando outras tradições goela a baixo.
– Na verdade, tentando, porque nosso “forró não é moda”. Ele existe, insiste e persiste. A lógica comercial construída historicamente a partir do eixo Sul-Sudeste continua influenciando fortemente o que chega às grades das nossas rádios locais. Este ouvinte que escreve o que todo mundo que gosta de rádio imagina, usa esse momento como desabafo, e também tem na cabeça que um outro modelo comercial, mais local e focado no que é tradicional pode chegar no mesmo lugar que outros mercados. No fim é o que importa, nesse pedaço de universo, não é o que um ouvinte pensa ou quer escutar e sim, a lei do quem pode pagar mais consegue ter a sua música no espaço do famoso “DIAL”, seja em em MHz ou em kHz.
A mudança estratégica mais recente que aconteceu vindo de um corporativo de rádio, que me lembro bem, foi o programa comandado pela jornalista Jéssica Ibrahin e o radialista, jornalista Emerson Saboia. O programa, mesa pra 2, era um deleite em nossa hora do almoço, entrevistando artistas da capital e do estado, na música, literatura e em outras artes, mas um dia alguém resolveu criar um novo posicionamento estratégico e cortar os programas locais, desrespeitando história e cultura de um povo por outro tipo de programa de música ou de notícia, tentando e conseguindo “nacionalizar” – entenda, padronizar músicas, estilo comportamental para ficar mais perto do eixo Rio-São Paulo. Onde dizem que o país funciona.
Isso é tão sério, tão sério que essa mesma rádio estreou um programa aos domingos com o tema “Sons do Nordeste”.
“A atração" vai ao ar todos os domingos, às 9h (horário de Brasília), apresentado por Mariana Aydar, apresentado e produzido pelo locutor Fábio César. O programa tem uma hora de duração e apresenta um panorama completo que vai desde clássicos do forró e xote até artistas da nova geração nordestina.
Para ouvir os episódios ou conferir a seleção de músicas do programa, você pode acessar a página oficial no site da rádio ou acompanhar a playlist oficial no Spotify. Para sentir o gostinho do programa e saber mais sobre a importância de levar o forró e a diversidade nordestina para o rádio nacional”.
- Isso mesmo, diversidade nordestina, você não leu errado... E olha que gosto do som da Mariana Aydar. Já fui até para o show dela no carnaval. Nada contra.
O que eu entendo – Um programa local de qualquer capital nordestina, feito por nordestino tocando, falando e mostrando forró, não pode ir ao ar, em rede nacional, mas ao contrário SIMMM! – Um “sim” de Cristiano Ronaldo, com os braços abertos e tudo.
Será o sotaque, o jeito de ser, o estereótipo que foge do que eles acham padrão e querem sempre ridicularizar? É muito para quê isso, aceitável e consumido aqui no nordeste. Isso tem que acabar, já passou da hora, esse boi tem que acordar com toda sua força e potencial.
Agora mesmo, nesse momento em que escrevo esse parágrafo, estou em um restaurante e cafeteria, na zona norte do Recife, há mais de uma hora, escutando, no som ambiente PAGODE romântico, em pleno mês de junho faltando duas semanas para a maior festa do Nordeste. Quando entro em um estabelecimento e escuto esse tipo de música acredito que todo esforço que eles fizeram valeu a pena. A doutrinação funcionou e funciona. - Isso é imaginação minha, pura ficção ou será um mero ponto de vista meu nesse processo de padronização?.
O que aconteceu com Ibrahin e Sabóia, nunca foi pontual. Aqui em Recife na década de 90 e começo dos anos 2000, a rádio cidade também acabou com o Sopa na Cidade, comandada pelo gigante comunicador Roger de Renor com todo seu potencial histórico. Lembro bem que na época a desculpa foi “devido às reformulações de grade e diretrizes artísticas”. Lembro bem de algumas coisas, deixo em uma caixa dentro da minha cabeça e coloco para fora quando preciso delas. Sou canceriano, graças a Ucides Cordatus.
É importante ressaltar aqui, que esses programas traziam a nata da cultura local, abrindo um espaço para apresentar as produções musicais, novos sons e novos artistas. (do forró, do frevo ao mangue)
Quando surgem as rádios comunitárias a coisa parecia que iria mudar, mas graças a perseguição federal e a mídia da maior emissora do país, fez com que a essência da rádio comunitária acabasse, por pura ingenuidade e ignorância dos proprietários que na época não eram políticos.
Depois de muitas perseguições, a maioria dos donos de rádios comunitárias começaram a seguir uma linha de padrão de rádio FM, tocando a mesma programação e sem ganhar o dito “jabá”. Esse tipo de atitude consolida ainda mais o que não é local, o que não é nosso, o que não é da comunidade. Depois ficou fácil para os políticos ditarem regras nas ditas mídias locais e seguir com elas debaixo do braço. Trabalhando em benefício próprio. Leia bem, BENEFÍCIO PRÓPRIO e não social para uma comunidade. Eles têm como padrinho o Santo António Carlos Magalhães.
Se eu pudesse hoje fazer um podcast com Luiz Gonzaga, eu iria perguntar como foi que isso aconteceu? Provavelmente ele iria defender as rádios comunitárias, deixando claro, que as rádios desenvolveram comunicadores que estão até hoje, embora poucos estejam fazendo o tipo de programa de quando iniciaram. Agora, existem outros tantos fatores embutidos em meu comentário que deveriam ser conversados.
- Sim. Muitos assuntos ainda temos para discutir, mas quero deixar para outro momento, inclusive o sobre as rádios comunitárias.
O importante é encontrar algumas saídas para o problema.- Deixa eu te contar, amigo ouvinte e leitor, sobre um estilo e um comunicador que nasceu em rádio comunitária faz um programa há mais de 25 anos, levando a base do forró para onde quer que vá. Esse comunicador tem o forró como sua marca principal. Mesmo com as faltas de apoio constantes, as brigas com políticos , ainda existe a força para se erguer o tempo todo, ele sempre se levanta e toma um lugar no discador de rádio que é seu por direito e isso para mim não deixa de ser uma revolução estrutural com base.
É esse tipo de programa que me faz voltar as lembranças, que me faz ter esperança na radiofonia, acreditar que o novo sempre vem e que podemos acreditar em nosso potencial, como consumidores, ouvintes e principalmente ter orgulho do que é nosso, o autêntico forró e suas vertentes. Obrigado, Rádio Folha FM e Abidoral por esse momento de recordação.
"Sintonize 96,7 Mhz no seu DIAL e escute o melhor do forró, programa do Véio Abidoral, todos os sábados das dez ao meio dia”
Esse texto não é só sobre forró, é sobre pertencimento. Agora me diga quando foi que deixamos de escutar a nossa própria voz?

Infelizmente a nossa pura e cruel realidade!
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