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O vapor maligno da revolução cultural interna




“O Curta Metragem “Filhos do Sertão” não deixa de ser um trabalho desenvolvido por um grupo de artistas, que embora, tenha como ponto fundamental e central a música Filhos do Sertão, da banda Vapor Maligno, mostra também um ideal “unir” e dar visão ao coletivo que é sempre a maior expressão cultural. Em alguns segmentos nada se consegue sem coletividade. Em uma terra onde na maior parte do tempo é de quem prega, da boca para fora o coletivo, e toma decisões que só atendem o próprio ego e, é ai que surge chutando o balde da falsa oralidade a Vapor Maligno, sempre correndo no sentido contrário da lógica egoísta cultural local. 

O umbigo cultural de Pernambuco poderia ser muito bem uma cidade multicultural e que esteve presente de maneira essencial em todas as revoluções do estado, mas na revolução cultural interna, tem muito para ser discutido ainda. 

O vapor que emana do quintal, a coletividade de verbalizar de maneira democrática, impõe referências que não se limitam a uma premissa artística, o coletivo do Vapor Maligno e a forma de pensar em grupo desenvolve um ato que é gigante. que é encantador! O Vapor sabe que é mostrando a aldeia que se torna universal, e não espelhando em gritos de homens fardados com seus uniformes antigos berrando a plenos pulmões, usando pessoas ou brincantes como plataforma de soberania própria. 

A cidade não para, ela só cresce na lama do caos e pode afundar ainda mais na intensidade da crise do agente cultural que não curou os próprios traumas de infância e deixa exalar de todas as maneiras a raiva, quando não se tem concordância em temas relevantes ao coletivo ou a negação quando não se beneficia. Mesmo que o coletivo ganhe ele se agarra em realidades próprias e egoístas, deixando aparecer o resultado de antigas lesões psicológicas. 

Quando esse problemas aparecem e ficam exposto ao sol aparece, deixa queimar todas as possibilidades de união e de coletividade. “Versos bonitos não mudam a realidade dura, Bacamarteiro”...  As lesões deixam marcas e a única solução é trabalhar na recuperação, usando os estágios de Kübler-Ross e muita terapia. – Terapia sempre é bom para tudo e tem muita fazedor de “cultural” precisando. 

Insisto no coletivo porque é a única maneira de se alcançar o desejável, é política na sua forma mais intensa de quantidade. A força de vários coletivos juntos derrubaram ditaduras e abrem os olhos para uma nova forma do fazer cultural, mas é preciso “união”, mesmo com algumas maneiras diferenciadas de pensar, que é salutar e agregador. O propósito de todos deve ser o bem comum, e talvez a unanimidade construa novas rotas com a possibilidade de dar bons frutos. 

Por que o curta metragem da Vapor Malígno,  Filhos do sertão, é um ponto de exemplo na busca da coletividade? Não é de hoje que a banda se preocupa em buscar parcerias, agregando outros artistas de áreas bem diferentes do segmento musical que exercem, amigos e conhecidos que gostam e aprovam o trabalho da banda estão presentes em ideias e ações que a banda executa. Todos os músicos da Vapor, entendem a força da democracia e do coletivo em nome de um propósito. São taxativos, e xiitas com esse tipo de coisa. É o poder maior desse time, que é um verdadeiro coletivo cultural, entender de forma simples e racional como tudo funciona, e como a arte se movimenta. 

Os clipes da banda sempre trazem seus seguidores de rede social e seus amigos, sejam de infância ou os novos, eles conseguem mobilizar as senhoras do Mauriti e até fazer elas baterem cabeça curtindo o som da banda e a voz rouca e monstruosa de Miguinho (Leandro Lins). Elas (As senhoras do Mauriti) entendem de forma prática o quanto o que eles fazem e buscam por melhorias locais  e coletivas da arte para a comunidade. Esse grupo entende que essas melhorias podem ser soluções importantes para todos e reverbera ao redor. Um espelho que deve ser refletido para mais grupos, e olha que temos muitos na cidade. 

Uma banda que consegue trazer parceiros e construir um “curta” apresentando artistas de variados segmentos extraindo o que existe de melhor na província que é a sua gente, a sua arte, não quer entrar em briga para perder, já partem do princípio do saber a força que tem desenvolvendo com grandeza as habilidades para iniciar a transformação cultural. 

Trabalho poderoso esse dos Filhos do Sertão. Não tem preço! Trazer figuras locais e construir um diálogo, juntando o que é melhor em todos, é um tapa na cara daqueles que ainda não entenderam o jogo.

Juntar Edu Rock, com toda sua história na cidade, seu Rock And Cozinha, Joan Arthur e seu pife ( Mestre Joan) , artista multifacetado que busca a todo momento cravar no mundo a marca de uma cidade com identidade forte e própria, e faz com grandeza. D’Melo com sua poesia e coreografia... Esse cara (D’Melo) é sobrinho de Paulinho Tapioca, porra! O cara que tocou em quase todas as bandas udgrudi da cidade. Tem que ter respeito por esse time e quando você pensa que acabou, ainda temos Oberdan.  O que falar de Oberdan? Esse cara é um fenômeno com toda sua inspiração e luz divina. Ele mudou um rumo musical de uma cidade que só tinha uma forma de fazer música, ele apareceu para perturbar, misturar e provocar. Sua insistência mostrou que existem possibilidades de criar outros caminhos sem ter que desfavorecer ninguém nessa jornada. É luz e revolução astral para muitos. 
 
“As vezes desconfio que a luz ofusca tanto quanto a sombra que a tormenta e entre as duas fico sem saber para onde ir” Saber onde ir não é o problema para Wagner Wins, Antônio Firmino, Leandro Lins, Gisael Luiz e Clauber Joaquim. Existe um pacto aqui, entre esses senhores, que vai além da profundidade da dificuldade dos dias, todos com suas habilidades e sensibilidades de tocar um instrumento desafiam a lógica quando empresta sua mão de obra para trocar uma ideia. Eles acreditam realmente na mudança e que pode acontecer. Se isso não é um começo de revolução interna, eu não sei mais o que é força e movimento em busca de uma “bem comum”. O roteiro pega você pelo braço do pensamento , te expõem a uma realidade. Se essa realidade não te faz pensar em todas as manobras políticas que utilizam o povo e sua cultura como arma para poucos, é melhor você repensar em como prosseguir com a sua vida hipócrita e sem sentido. 

Wagner é um gênio e Antônio segue sua linha revolucionária de sempre. Essa dualidade no sonho do bacamarteiro que os dois trazem ao final do curta, ainda é uma eterna dissensão entre nós e um ponto de partida dos filhos do sertão na realidade contemporânea. A verdade pode refletir o futuro e o passado deixou marcas profundas. “Heróis” de revoluções esquecidas, banalizados pelo sistema de ensino e colonizadores apresentados como salvadores. A mudança tem que ser apresentada de todas as formas possíveis que mais grupos entendam a revolução que é quando um coletivo apresenta junto a força da nossa história e a importância de não ter grupos que atendam a necidade de uma pessoa. A arte é uma maneira de explorar o passado, apresentar ao presente as mudanças, baseadas nos erros anteriores e construir um futuro melhor.

Viva o Vapor Maligno da Democracia, viva a forma de fazer o coletivo ter um objetivo de verdade e viva aos Filhos do Sertão!  

Por: Alê Neres 

Comentários

  1. Gratidão irmão, por cada cada palavra sua, me emocionei. E Gratidão por todo suporte que vc vem dando a Cultura cabense! 🔥✊🏿🤘

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  2. Quem agradece sou eu. Por ter grandes amigos fazendo a cultura acontecer do jeito que deve ser na coletividade.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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