O despertador do relógio foi programado no tempo exato para não ter espaço para a preguiça matinal. Nada de dez minutos a mais. Abriu os olhos, esticou o corpo e caminhou até a cozinha para preparar o café e fazer seu desjejum. Cortou o pão escutando a televisão que antes de entrar na cozinha ligou. Pegou o queijo na geladeira e o desfiou colocando no pão. Enquanto a água esquenta foi para o banho escutando o âncora que falava sobre os Palestinos, povo de Israel, terrorismo, Hamas, guerras pelo mundo e debaixo do chuveiro relincha cansado. - Embora tenha acabado de acordar.
Desligou o chuveiro e esticando o braço pegou uma toalha fria que não colocou para enxugar, depois do último uso e que a umidade da noite não ajudou no processo. Passou sem muita vontade no corpo e voltando para cozinha desligou a água já fervendo jogando-a no coador de café, sem o pó do café. Não suportou a certeza da falha e gritou! Era quatro e dez da manhã. O vizinho acendeu a luz do corredor do prédio, mas não foi ver o que era. – Talvez tenha pensado no trabalho que seria se alguém estivesse morrendo e ter que ajudar àquela hora...
Sentou à mesa, depois de devidamente incluir o pó do café no coador, mastigou o pão, o queijo não estava com o gosto bom, o pão de três dias, mas o café estava quentinho. Olhando para a TV escutou notícias de crianças degoladas em Israel, velhos e mais crianças mortas em Gaza, terremotos no Afeganistão, guerra na Croácia, chacina no Rio e em São Paulo e mais um corpo de um jovem encontrado no Cabo de Santo Agostinho. Enquanto degustava a única coisa saborosa da manhã, o seu café quentinho. Lembrou da marmita preparada na noite anterior e colocou na bolsa.
No quarto pegou seu uniforme de menino maluquinho, uma camiseta amarela, bermuda e tênis, mas não era para encontrar a sua Julieta. Olhando para a cadeira estava lá a cabeça completa do personagem de Ziraldo, sua carinha de riso e a panela tão característica colocando-a embaixo do braço partiu para o trabalho com o uniforme e a bolsa nas costas. Quinze minutos andando e dois ônibus até o centro da cidade, depois mais cinco minutos até a loja de brinquedos. Barulho de carros, alto falante nos poste, a caixa de som da loja e isso tudo antes das Oito horas da manhã. Um menino que passava pisando no seu pé, a gritaria dos ambulantes, cliente perguntando coisas que não ele escutava, a vendedora olhando para ele e reclamando que não ouvia nada com tanto tumulto. – Final de ano é sempre assim um inferno, calor, gente demais sem noção.
Na hora do almoço o micro-ondas da loja não funcionou e ele comeu sua marmita sem esquentar e sozinho. Sentando no fundo da loja, mastigando a comida fria com um gosto diferente. Pensou por um momento que a comida poderia estar estragada. Olhando fixo para o nada, pensava o quanto seria difícil mais quatros horas com a cabeça do menino maluquinho sobre os ombros e o calor infernal de Recife. – “Hellcife” o inferno é aqui.
Ao final do dia o barulho de carros, alto falante nos postes, a caixa de som da loja, a voz fina perturbadora da vendedora e os gritos dos ambulantes não fazia mais parte da sua atenção, introduzindo o ambiente a sua necessidade. No fechar da loja correria, um tiro e mais um corpo estendido no chão, era um turista alemão que não soltou o celular e um local achou por direto tirar sua vida. De fantasia na mão, olhou ao redor percebendo o desespero da mulher que chorava ao lado do corpo do marido no chão, lembrou do noticiário da manhã, pensando como estariam os familiares do povo Judeu recebendo sues bebes sem cabeça, pensou na família do pobre homem morto, que saiu para conhecer uma cultura e acabou recebendo a violência da desigualdade de um estado, que tentam de forma midiática, mostrar o inverso da realidade. – Rede social é foda, nada de errado, tudo lindo e belo igual os desenhos da revista Sentinela.
Olhou para o céu, deu um suspiro e de cabeça baixa seguiu seu caminho para o ponto de ônibus...
Continua...

ResponderExcluirO centro do Recife durante o mês de dezembro é um verdadeiro inferno de Dante. Seu asfalto escaldante nos dá uma sensação de morte certa...(risos).
Caro escritor, sua linguagem textual é massa! Coloquial, simples e significativa. Seu tom subjetivo consegue abordar o cotidiano de maneira reflexiva. Adorei a mistura de ficção e realidade que trouxe de forma dinâmica ao texto observações críticas sobre o contexto local.
P.S: Já esperando a parte II :)